E por trás do texto, os ghost writers

Nem todo o texto que você lê foi escrito pelo autor ao qual é dado crédito. Por trás deste nome, pode estar um ghost writer (ou escritor fantasma), profissional contratado para escrever no lugar de outra pessoa sem receber nenhum crédito por isso. O processo é complexo: o ghost writer tem que captar a maneira de pensar de seu contratante, além do modo de escrever, recolher informações sobre um determinado assunto e passar para o papel.

O mercado de trabalho envolve múltiplos produtos, como artigos, monografias, biografias e até discursos. O profissional recebe pelo projeto e a remuneração. Assim, consequentemente, depende do processo de produção (fatores como tempo de pesquisa, número de páginas, valor do produto final também influem).

O ghost writer inicialmente deve ter uma convivência com o contratante, para adentrar em seu universo. Feito isso, o profissional consegue captar melhor a linguagem que o “autor” deseja e até conhecer as ideias que este pretende passar pelo texto. A jornalista Sandra Seabra Moreira, que trabalha como ghost writer há três anos, explica que neste momento é decisivo que exista uma empatia com as ideias do contratante. “Você tem que entrar nessa pessoa, você tem que entender as motivações dela. Não é só uma afinidade emocional, é uma afinidade de admiração. Se eu não tivesse isso, talvez eu não conseguisse a mesma eficiência”, afirma.

Além disso, o ghost writer constantemente escreve sobre temas distantes do seu universo. Isso requer além de uma pesquisa inicial sobre o assunto, contínua atualização, principalmente para projetos que demandam mais tempo. Portanto, a tarefa requer que os profissionais sejam extremamente organizados. Sandra conta que tem que impor a rotina de seu trabalho. “Eu faço discussão de pautas [com os contratantes], mas você tem o tempo todo coisas acontecendo. Eu tenho que ficar atenta não só aos jornais do dia, mas também ao que está acontecendo nas redes sociais. Ao longo da semana, eu vou mexendo com três a quatro temas por dia”, explica.

Outra questão importante para ela na escolha de clientes com quem trabalhar é a preferência por mulheres. “São séculos em que a gente teve dificuldade de se posicionar”, explica a escritora. “Sou feminista e me agrada muito ajudar a colocar no mundo o que as mulheres pensam.”

E como fica a questão do crédito? Depois que o ghost writer se dedica à pesquisa e à escrita, mas não é seu nome que assina o texto? Sandra tem uma perspectiva baseada na sua formação como jornalista, que se preocupa com a difusão de conhecimento. “Como jornalistas, a gente quer passar informação pra sociedade. Eu tenho esse ideal. Quando eu vejo que meu artigo vai pra um jornal e é lido e desse jornal vai pra uma rede social e é curtido e comentado, eu não me importo que não tenha meu nome”, diz ela, que trabalha tanto com profissionais da área pedagógica e quanto do direito homoafetivo.

Sandra também afirma que textos não são individuais. “Hoje, em redações, você tem várias pessoas mexendo no seu texto. Ele sai com o nome do repórter, mas outras pessoas passaram por ali. Eu acho importante que os estudantes tenham a consciência que o texto é uma produção coletiva”. Assim como no jornalismo, explica ela, o trabalho como ghost writer também é baseado na cooperação. “O ghost writer tem muito disso, é um trabalho altamente coletivo. Não só a gente traz informação, mas sugere outra redação pro texto. É um trabalho a dois, precisa dessa abertura”.

Texto original no link (Abril/2014)

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