Apeto na cintura – cinta modeladora

Já reparou que as roupas masculinas e femininas têm botões de lados opostos? No caso das mulheres, eles ficam do lado esquerdo. Na verdade, isso tem uma história: em séculos passados, as pessoas utilizavam muitas peças de roupa. As mulheres, em especial, usavam corsetes ou espartilhos por baixo de seus vestidos para afinar suas cinturas, o que tornava ajuda de uma criada necessária. Assim, para que a criada abotoasse as várias camadas, foram invertidos os botões e a tradição ficou.

Uma tradição que parece não ter ficado foi a de muitas camadas, certo? Não é bem assim. Pode ser que hoje a gente não use apoios de metal para a saia ser mais bufante, mas continuamos moldando o torso. Ainda que os corsetes e espartilhos tenham ficado para trás, o princípio por trás deles ainda existe.

Qualquer loja de lingerie tem em sua vitrine peças modeladoras. Sutiãs push-up, bojos e, principalmente, os bodys (ou cintas modeladoras). As peças que servem para esconder as temidas gordurinhas laterais e espremer um torso dentro de uma peça de roupa. Em qualquer evento formal, grande parte das mulheres se utiliza desse artifício para evitar que o corpo “marque” o vestido.

A editora da Elle e jurada do Project Runway, Nina Garcia, cita as contas modeladoras em seu livro,”As 100 +”. Entre os 100 itens que ela coloca como importantes em seu guarda roupa, estão as peças redutoras: “Esse é o maior segredo das estrelas de Hollywood. Elas te deixam um tamanho menor”.

Em tempos que uma modelo da Victoria’s Secret recebe críticas a seu corpo, não é de se espantar que tenha uma difusão muito alta desse tipo de peça no mercado. A ideia pode remeter a calcinhas de cintura alta, mas além das cintas modeladoras comuns existem as versões mais requintadas: ao invés do tecido bege, elas imitam corsetes e espartilhos ou têm um cunho mais sexual. É como o caso da lingerie de casamento: além de ter como objetivo afinar a cintura da noiva e evitar que qualquer curva apareça no vestido, ela também tem que ser sensual para a noite de núpcias.

Não é só nas vitrines que surge esse tipo de produto. Nos intervalos da TV, comerciais da Polishop anunciam cintam modeladoras que prometem reduzir o tamanho de roupa de quem usa. Como diz o Dr. Rey na propaganda: “já imaginou você se olhar no espelho e enxergar outra mulher a partir de agora? Com tudo no lugar, barriguinha com aparência firme e durinha, bumbum super sexy e diminuir dois tamanhos dos eu manequim sem cirurgia?”. Na maioria dos casos, a compra desses produtos vem acompanhada de um creme ou gel que promete reduzir a gordura localizada.

Para além do uso comum de cintas modeladoras, existe também o waist training (treino de cintura), prática que envolve a modificação permanente do corpo. Nesse caso, a usuária fica com as cintas – que são mais duras e se aproximam mais de um espartilho que de uma lingerie comum – durante horas, diariamente ou várias vezes na semana. A prática funciona comprimindo lentamente não só o abdômen, mas também as costelas, modificando a linha da cintura até atingir o efeito ampulheta desejado. O método se popularizou recentemente graças às irmãs Kardashian, adeptas desse estilo de corpo.

Parece bom demais para ser verdade? Pois é. Assim como outras peças de lingerie, o aperto causado pelas cintas modeladoras tem efeitos adversos: além de machucar a pele, elas impedem que a região tenha o fluxo sanguíneo normal e podem levar a varizes. Efeitos mais sérios também incluem enfraquecimento dos músculos da lombar, que não se exercitam pela falta de movimento. Com o atrofiamento desses músculos, se torna mais difícil exercitar o abdômen corretamente, sem contar as possíveis dores lombares e alterações na postura.

Mas isso afeta o cotidiano de quem usa ou os efeitos são só a longo prazo? Sim, o uso das cintas também pode prejudicar as atividades do dia-a-dia e esportivas. Conversei com a Maria, que usou o acessório para fazer parte do grupo de dança da sua igreja: “quando a gente experimentou o figurino uma outra menina sugeriu que a gente usasse essas cintas. Ela também era gorda, e a gente meio que se sentiu desconfortável de dançar com o figurino marcando nossos corpos”.

Além do desconforto, ela explica que a cinta modeladora foi prejudicial ao desempenho das duas na dança, por conta do comprimento dos músculos. “Isso é totalmente inadequado porque você não pode estar toda apertada pra dançar, e a bermuda realmente comprimia todo o abdômen”, diz. Além de tudo, o uso continuado trouxe problemas na superfície. Ela explica que nas costuras do modelador, que ficavam no início da coxa e logo abaixo dos seios, a pele ficou marcada e irritada graças à fricção.

Cinturas mais finas, sensualidade para parceiros sexuais, alterações permanentes no corpo e busca de um padrão de beleza. Ao contrário das mulheres de outros séculos, nós não precisamos mais de muitas camadas de roupa e quem alguém venha nos ajudar a vestí-las, mas a adequação aos ideais de corpo continua dolorosa. Os espartilhos estão tão em alta como sempre estiveram. Mesmo que agora sejam feitos de nylon.

Publicado em: http://www.lado-m.com/aperto-na-cintura-a-moda-da-cinta-modeladora/

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