Arte e padrões de beleza – por que sempre brancas?

“Do women have to be naked to get into the Met?” (em português: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met?”) é o slogan dos pôsteres criados pelo grupo feminista Guerrilla Girls, que questiona a presença de apenas 5% de artistas mulheres no renomado museu novaiorquino, em contraste com 85% das imagens de nudez sendo femininas. Mas como isso aconteceu e o que a religião tem a ver com isso?

Tem tudo a ver com detenção do conteúdo. Se a história é contada pelos vitoriosos, a história da arte não deixa de seguir esse padrão. Durante o período medieval, a produção cultural da Europa se manteve intrínsecamente ligada ao catolicismo, ou seja, seguindo os padrões da Igreja.

Mas os padrões da Igreja não surgiram do nada. Betty Chen, dona do canal do YouTube Articulations, explica: “a arte cristã foi influenciada por ideais clássicos da Grécia e de Roma”. Assim, as feições caucasianas se tornaram o mainstream. As mulheres, em especial, são submetidas a padrões de aparência da época e da cultura predominante.

Vídeo: “O que é arte clássica?” do ARTiculations

Com a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, a maior parte da arte preservada na Europa foi a arte que se manteve nas mãos da Igreja. Isso explica, por exemplo, a grande quantidade de materiais da época presentes em museus Europeus até hoje.

Ainda que a representação feminina em obras medievais exista, ela é baseada em mulheres aristocráticas, modestas e com as feições brancas e europeias as quais os artistas estavam expostos. Ou, além disso, eram figuras religiosas, por conta de influência católica na cultura.

Mas como explicar que a influência de padrões de beleza eurocêntricos continuou mesmo depois do Renascimento? Existe ainda uma herança dos padrões religiosos na percepção das mulheres? As tradições da Europa católica perduraram?

De acordo com esse vídeo, do museu Tate Modern (Londres), a resposta para isso tem a ver com a falta de presença das mulheres no mundo da arte. Ou, mais especificamente, com a falta de reconhecimento das mulheres pelo mundo da arte. A atriz Jemma Kirke explica: “sempre houveram mulheres artistas. Mas os homens que escreveram os livros de História e, de alguma forma, esqueceram de mencioná-las”.

E a disparidade entre homens e mulheres não acabou com o fim da Idade Média. Mesmo quando homens pintavam mulheres nuas como libertação dos padrões, as mulheres tinham que aderir às regras. “Na Renascença, as mulheres eram incentivadas a fazer arte, porque as tornava desejáveis. No século XVIII, as mulheres podiam pintar o que quisessem … desde que aceitassem os padrões da feminilidade: beleza, graça e modéstia”, continua Kirke. Então os padrões de delicadeza lá da Idade Média não mudaram tanto.

Sem contar que as ideias patriarcais também influenciaram a perpetuação do trabalho de artistas. O Tate usa como exemplo Judith Leyster e Frans Hals. Ambos tinham um estilo parecido de pintar, mas ela se tornou obscura após a morte por ser mulher.

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Apesar das Guerrila Girls tratarem principalmente de museus de arte contemporânea, não é difícil perceber que a disparidade de gênero é presente em museus que exibem arte de outras épocas. Ou mesmo notar que grande parte dos artistas que estudamos e vemos reproduzidos por aí são homens e europeus, o que difundiu o padrão de beleza feminino de lá.

Betty Chen reflete sobre o assunto: “o ensino de História da Arte é muito eurocêntrico, o que pode criar alguns problemas.” Ela menciona que começou a se interessar pela ideia de ensinar arte na internet para que houvessem mais discussões diversas sobre o assunto. “Um dos meus objetivos é falar sobre isso no meu canal.”

Ela explica que os artistas de hoje ainda lidam com os padrões, mas que há formas de quebrá-los. Um dos exemplos a ser citado é King for an Hour, da artista Lynette Yiadom-Boakye. Na pintura, uma figura andrógina e negra remeta a um nu feminino na pintura Le Déjeuner sur l’herbe, de Manet.

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“É por isso que quando eu falo sobre arte, além de tentar informar, tento fazer com que todo mundo reconheça vieses, preconceitos e desafie o status quo”, diz Betty.

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