Olive Penderghast, livros & Classic Alice

Ironically, we were studying “The Scarlet Letter”, but isn’t that always the way? The books you read in class always seems to have a strong connection with whatever angsty adolescent drama is being recounted. I consider this. Except for ‘Huckleberry Finn’, ’cause I don’t know any teenage boys who have ever run away with a big, hulking black guy.

Vocês provavelmente já sabem disso, mas essa é uma quote de Easy A. Quando eu vi esse filme pela primeira vez – e que fique claro que é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, podem me julgar o quanto for – foi uma das partes que eu mais gostei. E é tão verdade. Talvez porque eu sempre tive um fraco por aulas de literatura, mas sempre pareceu que os livros tinham alguma coisa a ver com a minha vida.

E não é uma coisa que acontece só com os livros pra aulas. Tenho um problema porque compro livros mais do que meu tempo e meu dinheiro permitem. Achei que comprando um kobo meu problema ia diminuir e agora meu vício tá físico e digital. Aqui tá o problema: tem uma livraria no meio do caminho. Não literalmente no meio do caminho, mas todos os dias, na volta pra casa da faculdade, desço do ônibus perto de uma livraria. E de não resistir a entrar a não resistir a comprar é só um passo. Enfim, eu carrego livros por aí o tempo todo e confesso que prefiro ficar olhando pra eles a prestar atenção nas coisas ao meu redor. Essa semana, por exemplo, tô dividindo meu tempo entre uma distopia YA e um livro que eu não consigo entender se é engraçado ou não.

Eu sou do tipo, então, que consegue arranjar um jeito de se identificar com as histórias que eu to lendo. Provavelmente por elas serem uma grande parte do meu dia-a-dia, mas a verdade é que mesmo os livros clássicos, sobre outros tempos e espaços, tão distantes da minha vida, parecem que de algum jeito se encaixam.

De volta à Olive Penderghast: pra se defender, ao contrário do que faz sua counterpart fictícia (Hester Prynne), a Olive põe sua vida na internet. O que é mais ou menos o que a Alice Rackham faz. Ok, pra começar, Classic Alice é uma websérie em que a personagem principal, Alice, recebe uma nota ruim em um trabalho de literatura. Acusada pelo professor de entender os personagens somente num nível acadêmico, ela resolve começar a viver a vida do jeito deles. A ideia é agir como os personagens de livros clássicos. E, claro, documentar tudo na internet.

Texto original no link (Abril/2014)

E por trás do texto, os ghost writers

Nem todo o texto que você lê foi escrito pelo autor ao qual é dado crédito. Por trás deste nome, pode estar um ghost writer (ou escritor fantasma), profissional contratado para escrever no lugar de outra pessoa sem receber nenhum crédito por isso. O processo é complexo: o ghost writer tem que captar a maneira de pensar de seu contratante, além do modo de escrever, recolher informações sobre um determinado assunto e passar para o papel.

O mercado de trabalho envolve múltiplos produtos, como artigos, monografias, biografias e até discursos. O profissional recebe pelo projeto e a remuneração. Assim, consequentemente, depende do processo de produção (fatores como tempo de pesquisa, número de páginas, valor do produto final também influem).

O ghost writer inicialmente deve ter uma convivência com o contratante, para adentrar em seu universo. Feito isso, o profissional consegue captar melhor a linguagem que o “autor” deseja e até conhecer as ideias que este pretende passar pelo texto. A jornalista Sandra Seabra Moreira, que trabalha como ghost writer há três anos, explica que neste momento é decisivo que exista uma empatia com as ideias do contratante. “Você tem que entrar nessa pessoa, você tem que entender as motivações dela. Não é só uma afinidade emocional, é uma afinidade de admiração. Se eu não tivesse isso, talvez eu não conseguisse a mesma eficiência”, afirma.

Além disso, o ghost writer constantemente escreve sobre temas distantes do seu universo. Isso requer além de uma pesquisa inicial sobre o assunto, contínua atualização, principalmente para projetos que demandam mais tempo. Portanto, a tarefa requer que os profissionais sejam extremamente organizados. Sandra conta que tem que impor a rotina de seu trabalho. “Eu faço discussão de pautas [com os contratantes], mas você tem o tempo todo coisas acontecendo. Eu tenho que ficar atenta não só aos jornais do dia, mas também ao que está acontecendo nas redes sociais. Ao longo da semana, eu vou mexendo com três a quatro temas por dia”, explica.

Outra questão importante para ela na escolha de clientes com quem trabalhar é a preferência por mulheres. “São séculos em que a gente teve dificuldade de se posicionar”, explica a escritora. “Sou feminista e me agrada muito ajudar a colocar no mundo o que as mulheres pensam.”

E como fica a questão do crédito? Depois que o ghost writer se dedica à pesquisa e à escrita, mas não é seu nome que assina o texto? Sandra tem uma perspectiva baseada na sua formação como jornalista, que se preocupa com a difusão de conhecimento. “Como jornalistas, a gente quer passar informação pra sociedade. Eu tenho esse ideal. Quando eu vejo que meu artigo vai pra um jornal e é lido e desse jornal vai pra uma rede social e é curtido e comentado, eu não me importo que não tenha meu nome”, diz ela, que trabalha tanto com profissionais da área pedagógica e quanto do direito homoafetivo.

Sandra também afirma que textos não são individuais. “Hoje, em redações, você tem várias pessoas mexendo no seu texto. Ele sai com o nome do repórter, mas outras pessoas passaram por ali. Eu acho importante que os estudantes tenham a consciência que o texto é uma produção coletiva”. Assim como no jornalismo, explica ela, o trabalho como ghost writer também é baseado na cooperação. “O ghost writer tem muito disso, é um trabalho altamente coletivo. Não só a gente traz informação, mas sugere outra redação pro texto. É um trabalho a dois, precisa dessa abertura”.

Texto original no link (Abril/2014)

Evento do MAC une música e artes visuais

O MusiMAC, criado como um projeto de integração entre duas unidades da USP, é uma série de recitais durante o segundo semestre, realizados no Museu de Arte Contemporânea (MAC USP). A parceria é realizada entre o próprio MAC e o Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes e tem como objetivo a união de duas manifestações artísticas. Para isso, o projeto se dá na forma de recitais de música erudita dos séculos XX e XXI, acompanhados de palestras sobre a arte contemporânea.

Cada recital, realizado nas instalações do MAC, será precedido por uma explicação sobre a linguagem musical, assim como exemplos visuais, cortesia do acervo do museu. Os temas dos quatro encontros serão “A mudança de paradigmas na música erudita do século XX: Debussy, Stravinsky e seus reflexos na música ocidental”, “Darmstadt, Congresso de Praga e a influência da música politicamente engajada na composição brasileira”, “De Olivier Messiaen a José Antônio de Almeida Prado: religião, simetria e a suspensão do tempo” e  “Arnold Schoenberg e a importância da forma musical: pela legitimidade da linguagem expressionista e dodecafônica”.

Eliana Monteiro da Silva, aluna de doutorado do Departamento de Música e idealizadora do projeto, explica que a iniciativa surgiu “da observação de seus três organizadores sobre a escassez de iniciativas que aproximem as diferentes manifestações artísticas no espaço da Cidade Universitária”. Ela cita o desconhecimento do público geral em relação à arte produzida a partir do século XX: “Nosso objetivo é trazer esta nova linguagem de forma didática, informal e participativa, com a apresentação de recitais mensais precedidos de palestras introdutórias, que possibilitem aos ouvintes uma maior identificação com a produção mais recente”. Desta maneira, o contato entre o público e a arte é facilitado.

Sobre o surgimento da ideia de unir o Departamento de Música e o MAC em um projeto, Eliana afirma: “A idéia de reunir a projeção de obras do acervo do MAC com apresentações ao vivo em seu auditório se deve à semelhança entre os procedimentos usados por compositores eruditos e artistas plásticos, o que pode auxiliar na compreensão de ambas as vertentes”. A tradição de juntar as artes plásticas à música erudita é, portanto, benéfica para ambas as partes. Além disso, ela frisa a importância de atrair a comunidade USP ao MAC: “ pretendemos atrair os estudantes e o público para este espaço maravilhoso que é o MAC USP, nem sempre explorado com a curiosidade que merece. Há coleções incríveis em seu acervo que muitos estudantes desconhecem”.

A música erudita e a arte contemporânea, apesar de serem manifestos culturais e artísticos importantes, não fazem parte do conhecimento comum. “Os concertos são acessíveis a todo o tipo de público. Para isso criamos o estímulo de fornecer certificados de participação a quem assistir a 3 concertos dos 4 da série. Todos sairão mais conhecedores da música erudita e da arte produzida nos séculos XX e XXI” explica Eliana. Sobre a preocupação com o entendimento dos participantes, ela ressalta a didática: “Esta é a função da palestra introdutória, realizada por mim de maneira sucinta, objetiva e em linguagem simples”.

Tanto a música erudita quanto as artes plásticas contemporâneas nem sempre fazem parte da bagagem cultural da sociedade e causam certo estranhamento no público. Contrariando essa noção bastante difundida, Eliana é da opinião que a música erudita e a arte são pensadas para atingir a sociedade de seu tempo:  “Não há porque ter receio da música erudita ou das artes plásticas. Conhecendo o contexto em que foram criadas, ninguém se sentirá esnobado por elas”. Ao mesmo tempo, ela reforça que a compreensão das obras aumenta o apreço por elas “Nem, ao contrário, [o público] tecerá comentários do tipo ‘Isso qualquer criança faz!’”

O motivo, em sua opinião, para a escassez de colaborações interunidades na USP é a falta de comunicação entre elas sobre seus trabalhos: “Acho que há falta de conhecimento entre os programas desenvolvidos nas áreas específicas”. Ela cita também o grande número de áreas de estudo e a falta de tempo no dia-a-dia como razões para essa falta de união.

Essas colaborações, de acordo com Eliana, são vantajosas e deveriam acontecer com maior frequência. “Nosso interesse em projetos interunidades da USP é imenso. A princípio as vertentes artísticas são próximas por natureza,” diz ela. Mas há também a possibilidade de trabalho com outras áreas de conhecimento. “Há outros parâmetros que podem ser aproximados à Música, como a História, Ciências Sociais, Letras, Educação, Matemática, Economia, Saúde, etc”. Pode haver um desconhecimento inicial, mas a partir de uma identificação, temos uma compreensão maior. “É como o estranhamento em relação à música erudita dos séculos XX e XXI: conhecendo melhor suas bases, o resto flui naturalmente”.

Texto publicado originalmente no link (Agosto/2013)

Comunicação como chave para a sustentabilidade

A Virada Sustentável, evento municipal relacionado à preservação do meio-ambiente teve presença também no meio universitário. Realizada na ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), envolveu coordenadores de diferentes grupos de pesquisa e visou iniciar a discussão sobre como a pesquisa universitária – mesmo a pesquisa nas áreas de humanas – tem mais relação com o meio ambiente do que se presume e o quanto entender alguns dos conceitos da área de comunicação ajuda no entendimento do conceito de sustentabilidade.

É com essa premissa que o professor Massimo di Felice, do CRP (Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo), inicia sua fala na primeira mesa-redonda do evento. Ele coordena um projeto de pesquisa chamado Redes digitais e sustentabilidade que pretende “buscar relações entre comunicação e sustentabilidade e, ainda, pesquisar a interação entre mídias digitais e a questão ecológica”. O professor afirma que é o papel da USP, como universidade pública, se conectar à sociedade.

Sobre a atualidade, di Felice explica que “nossa época está marcada por duas transformações: a revolução digital e a emergência de uma consciência sobre a questão ambiental”. A questão ambiental encontra-se, para ele, em uma posição muito diferente da que esteve até então, em forma de contradição: a cidade e o campo, a natureza e a tecnologia. Pelo contrário, explica o professor “a tecnologia, os elementos naturais e as inovações são constituintes de uma cultura”. Que cultura é essa? A cultura eco.

Nessa cultura, estamos vivenciando uma nova fase: fase da interação. Para isso deve-se construir uma nova concepção do que é a sociedade. Nessa concepção, de acordo com di Felice, os membros de uma sociedade não são somente pessoas, mas também a fauna, a flora e os elementos naturais como rios e lagos. Ou seja tudo aquilo com que os seres humanos interagem. Essa é a ecologia social, ou seja, é um novo tipo de complexidade ambiental: “no interior da biosfera, ou seja, é um novo tipo de complexidade ambiental: “no interior da biosfera,não há externalidade”, explica di Felice. Os elementos, nessa concepção, são codependentes. Ao invés de separá-los em diferentes categorias, é possível entendê-los como parte de um mesmo todo, que só funciona se houver interação. Para explicar o conceito de sustentabilidade, di Felice empresta um termo da comunicação e das redes digitais: a interface. O ambiente de encontro de todos os fatores de um ecossistema, onde “em lugar de separar, há interação e conexão”. Na comunicação, quando há interação, há transformação. É nessa interface, portanto, que os elementos podem transformar uns aos outros e é assim que o ecossistema se forma. Outro fator importante é o equilíbrio entre os elementos da natureza. Os níveis não devem ser fixos e hierárquicos para determinar a importância de cada um. Pelo contrário, devem ser mutantes e conectar os indivíduos e o meio-ambiente em forma de rede. Isso reflete a comunicação e as redes digitais: cada vez mais, a sociedade se encontra em uma dinâmica de redes, de conexões mais mutáveis e menos hierárquicas. O mesmo, se aplicado ao meio-ambiente, pode trazer vantagens. Desta maneira, explica do Felice, “nós não sabemos mais onde terminamos. Somos parte da Terra e nosso destino depende do destino da biosfera”.

A importância da aplicação dos estudos realizados na ECA aos estudos sobre meio ambiente e sustentabilidade é a nova visão que a comunicação traz a essas questões. Ao invés de reforçar a contradição entre tecnologia e preservação, tal como é feito em visões mais tradicionais, o estudo do projeto Redes digitais e sustentabilidade evidencia o quanto é fundamental para o meio ambiente este entendimento em forma de rede. “A relação entre indivíduo, tecnologia e meio ambiente é positiva enquanto houver interação e transformação entre eles”. Assim, é importante que, na busca pela sustentabilidade, entenda-se que o ser humano faz parte de um sistema e interage com todos os seus elementos, cada um essencial para a manutenção da totalidade. Afinal, explica di Felice, “a grande lógica por trás da sustentabilidade é quebrar divisões”.

Texto publicado originalmente no link (Junho/2013)